Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, ganhará uma nova roupagem para os leitores de língua alemã. A Editora Fischer Verlag, de Frankfurt, anunciou que lançará, em agosto de 2026, uma nova tradução da obra-prima, marcando os 70 anos do romance. A aguardada versão busca aprofundar a complexidade da linguagem de Rosa, explorando novas nuances para o público germânico.
O tradutor Berthold Zilly, após quase 15 anos de imersão no universo roseano, finalizou a árdua tarefa em meados de 2025. Atualmente, o texto está sob revisão do coordenador do projeto, Sebastian Guggolz, que prepara complementos essenciais como glossário, notas e posfácio. “A gente está na reta final, e eu vou sentir um grande alívio. Já estou sentindo agora, porque o grosso já está feito”, declarou Zilly à DW.
Zilly não é um novato nos desafios da literatura brasileira traduzida. Em 1994, ele verteu para o alemão “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, um projeto igualmente complexo e inédito na Alemanha. Sua experiência com autores como Lima Barreto, Machado de Assis e Raduan Nassar o preparou para a imensidão de “Grande Sertão: Veredas”, considerado por ele o seu maior desafio.
A nova tradução enfrenta, além da complexidade da prosa roseana, a sombra da primeira versão alemã, assinada por Curt Meyer-Clason em 1964. Meyer-Clason, que chegou a se corresponder com Guimarães Rosa, teve sua tradução considerada pelo próprio autor como a “tradução-mãe” da obra. A Fischer Verlag, no entanto, apostou em uma nova interpretação, sugerindo o título “Grosse Sertão: Überquerungen” (Grande Sertão: Travessias, em tradução livre) para a edição de Zilly.
Para desvendar os mistérios da linguagem de Guimarães Rosa, Zilly embarcou em viagens pelo sertão mineiro, buscando vivenciar os cenários do livro e compreender o “mineirês”. Além disso, trocou experiências com Alison Entrekin, tradutora da obra para o inglês, e consultou a versão em holandês de August Willemsen. Zilly reconhece a importância de Meyer-Clason, mas critica sua abordagem, que, segundo ele, “simplificou demais” a poética do autor mineiro, atenuando a estranheza e a opacidade características da obra.
A busca por uma tradução mais fiel ao espírito original da obra se reflete até mesmo na escolha das palavras. Um exemplo é a famosa “nonada” que abre o monólogo de Riobaldo. Meyer-Clason optou por uma frase explicativa, enquanto Zilly propõe um neologismo que busca preservar o ritmo e o estranhamento da expressão original, demonstrando a minúcia e o cuidado dedicados a esta nova versão de “Grande Sertão: Veredas”.
Fonte: http://www.metropoles.com