A Bolívia enfrenta um momento crucial neste domingo, com a realização de um segundo turno presidencial inédito. A disputa, polarizada entre dois candidatos de direita, sinaliza uma possível ruptura com duas décadas de hegemonia da esquerda no país. A eleição ocorre em um contexto de severa crise econômica, com inflação galopante e escassez de itens essenciais, definindo o tom da campanha.
Os candidatos, Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão, e o ex-presidente Jorge Quiroga, da coalizão Libre, capitalizaram o crescente descontentamento popular com o Movimento ao Socialismo (MAS). A crise econômica, com a inflação ultrapassando os 23% e a falta de combustíveis, domina o debate, relegando outras questões importantes, como os incêndios florestais e o combate ao narcotráfico, a um segundo plano.
“As filas são intermináveis. Aqui em La Paz duram horas e horas, e no interior há quem espere três ou quatro dias”, relata Christina Stolte, da Fundação Konrad Adenauer, ilustrando a gravidade da situação. A escassez de diesel, em particular, afeta o transporte de produtos e o ciclo econômico, agravando ainda mais o cenário.
Jorge “Tuto” Quiroga, um político experiente com passagem pelo governo e familiaridade com organismos internacionais, aposta em sua capacidade de atrair investimentos externos para o país. “Ele afirma ter acesso a instituições que podem ajudar a Bolívia a enfrentar a grave crise econômica”, explica a cientista política Vania Sandoval. Seu histórico inclui uma passagem como vice-presidente durante o governo de Hugo Banzer, figura controversa na história boliviana.
Rodrigo Paz, por sua vez, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, aposta no carisma e na experiência em gestão pública. Sua campanha, focada no contato direto com a população, surpreendeu no primeiro turno. Paz defende soluções internas para a crise, afirmando que a Bolívia possui recursos suficientes para dinamizar a economia sem a necessidade de intervenção do FMI.
O futuro presidente da Bolívia enfrentará desafios complexos, incluindo a construção de governabilidade e o enfrentamento da crise econômica. “A grande questão é como formar alianças que devolvam credibilidade e abram espaço para gerar legitimidade no conjunto da população”, avalia Moira Zuazo, pesquisadora da Universidade Livre de Berlim. A necessidade de cortar subsídios aos combustíveis é apontada como uma das decisões mais difíceis a serem tomadas.
A sombra de Evo Morales, ex-presidente e figura central na política boliviana nas últimas décadas, paira sobre o processo eleitoral. Mesmo impedido de concorrer, sua influência permanece significativa. “O MAS é mais do que Evo Morales”, afirma Zuazo, destacando a identificação do eleitorado com a ideia de Estado plurinacional e os direitos dos setores populares e indígenas. O modo como o próximo presidente lidará com a figura de Morales será crucial para o futuro da Bolívia.
Fonte: http://www.metropoles.com