Pedro Ernesto Macedo questiona o significado do heroísmo e da coragem diante das injustiças
O que você faz quando ninguém está olhando? Talvez essa pergunta diga mais sobre o seu heroísmo do que todas as opiniões que você publica.
Em “Heroes”, David Bowie não nos oferece a fantasia de uma humanidade vitoriosa. Há um muro, há ameaça, há amantes que se beijam apesar de tudo. O mundo não se tornou justo para que aquele encontro acontecesse. Eles é que não esperaram pela justiça do mundo para viver.
Eis o incômodo: podemos ser heróis por um dia. Não por toda a eternidade. Não porque sejamos puros. Por um dia. A grandeza deixa de ser uma identidade que exibimos e se torna um ato pelo qual respondemos.
Preferimos o contrário. Queremos ser reconhecidos como bons sem enfrentar o custo de fazer o bem. Exibimos indignação, mas silenciamos quando a injustiça vem de alguém que nos convém. Nesse instante, a consciência descobre uma extraordinária habilidade para negociar.
Bowie põe “Heroes” entre aspas. Eu leio nessas aspas uma desconfiança necessária: cuidado com quem se proclama herói. Quem precisa anunciar a própria grandeza talvez esteja mais interessado na plateia do que no gesto.
A canção não elimina a derrota. Sua força está em não exigir a certeza da vitória. Amar sob ameaça, defender alguém sem garantia de sucesso, recusar uma humilhação que todos aceitaram: nada disso resolve a história. Mas muda nossa participação nela.
É o que precisamos aprender. A lucidez não nos obriga ao cinismo. Compreender a brutalidade do mundo não torna inteligente a decisão de imitá-la. Há quem chame de maturidade o que é apenas desistência bem argumentada.
Não precisamos nos imaginar salvadores. Precisamos interromper, em algum ponto, a nossa colaboração com aquilo que condenamos. Às vezes, o muro que podemos enfrentar hoje é a conveniência que nos mantém calados.
Bowie nos deixa uma possibilidade modesta e exigente: um dia em que o medo não decida tudo. Amanhã será preciso escolher outra vez. Nenhum gesto nos concede inocência permanente.
A pergunta, portanto, não é se você é um herói.
É o que você fará hoje, sabendo que pode não haver ninguém perto de ti
Pedro Ernesto Macedo

Pedro Ernesto Macedo propõe uma reflexão sobre o verdadeiro sentido de ser um herói. Imagem: Arquivo pessoal.