Você pode dormir oito horas e ainda assim acordar cansado. Pode passar anos dormindo cinco ou seis horas por noite e acreditar que o corpo simplesmente “se acostumou”. Mas o cérebro talvez não encare essa dívida de sono da mesma maneira.
Nos últimos anos, pesquisas têm reforçado uma relação importante entre qualidade do sono e saúde cerebral. Pessoas que dormem mal de forma persistente apresentam, em estudos observacionais, maior associação com alterações cognitivas e com marcadores relacionados ao envelhecimento cerebral.
Durante o sono, o cérebro está longe de ficar “desligado”. É nesse período que ocorrem processos fundamentais para consolidar memórias, regular emoções e reorganizar informações adquiridas ao longo do dia. O sono também está relacionado a mecanismos de remoção de resíduos metabólicos do tecido cerebral.
Quando noites ruins deixam de ser uma exceção e passam a fazer parte da rotina, começam a aparecer consequências conhecidas: dificuldade de concentração, falhas de memória, irritabilidade, sonolência e queda de desempenho. A longo prazo, porém, a preocupação vai além de simplesmente estar cansado no dia seguinte.
Distúrbios do sono também podem caminhar ao lado de fatores que prejudicam a saúde do cérebro, como hipertensão, obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. A apneia obstrutiva do sono merece atenção especial: além de fragmentar o descanso, pode provocar repetidas quedas na oxigenação durante a noite e está associada a maior risco cardiovascular e cerebrovascular.
Isso significa que quem dorme mal terá demência? Não.
Doença de Alzheimer e outras demências são condições complexas, influenciadas por idade, genética, saúde cardiovascular, hábitos de vida e diversos outros fatores. O sono é uma peça desse quebra-cabeça, e ainda existem questões importantes sobre quanto dessa relação é causa, consequência ou uma combinação das duas coisas.
Há, inclusive, uma via de mão dupla: alterações cerebrais relacionadas a doenças neurodegenerativas podem começar anos antes do diagnóstico e também modificar a qualidade e a arquitetura do sono.
A mensagem, portanto, não é buscar uma quantidade “perfeita” de horas todas as noites, nem entrar em pânico depois de uma madrugada ruim. O que merece atenção é um padrão persistente.
Ronco intenso, pausas respiratórias percebidas durante a noite, sonolência excessiva durante o dia, insônia frequente ou acordar constantemente sem se sentir descansado não deveriam ser normalizados.
Dormir bem não é apenas descansar para enfrentar o dia seguinte. Cuidar do sono também é uma forma de cuidar do cérebro que você deseja ter nas próximas décadas.
Dra. Nayara de Paula Guerreiro
Médica Neurologista | Fellowship em Cefaleias pela USP
CRM-SP 233494 | RQE 135460
Instagram: @NAYARA_GUERREIRO
