Um novo relatório da Atribuição Climática Global (WWA) e da Climate Central revela que, mesmo com o cumprimento das atuais metas de redução de emissões, o mundo se encaminha para um aumento de temperatura de 2,6°C. Essa elevação trará consigo 57 dias adicionais de calor extremo por ano, impactando severamente a saúde e o bem-estar da população, especialmente os idosos e grupos vulneráveis.
Apesar do calor ser frequentemente ofuscado por desastres mais visíveis, como enchentes e tempestades, ele se configura como a forma mais letal de clima extremo. As mudanças climáticas intensificam as ondas de calor, contribuindo para um cenário alarmante de meio milhão de mortes anuais e colocando ecossistemas cruciais, como os recifes de corais, à beira do colapso.
O estudo enfatiza que intensificar os esforços para cumprir as metas do Acordo de Paris é crucial para proteger comunidades em todo o mundo. “Ainda não estamos vendo a ambição máxima, e isso é obviamente um problema enorme”, alerta a climatologista Friederike Otto, da WWA, destacando que as consequências recairão sobre os mais pobres.
Firmado em 2015, o Acordo de Paris comprometeu 196 países a limitar o aquecimento global a menos de 2°C, buscando esforços para mantê-lo abaixo de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. No entanto, mesmo que as metas sejam alcançadas, o aquecimento projetado de 2,6°C até o final do século representará um aumento significativo nos dias de calor extremo.
“Ainda estamos caminhando para um futuro perigosamente quente”, afirma Kristina Dahl, vice-presidente de ciência da Climate Central, ressaltando a despreparação de muitos países diante do nível de aquecimento atual. Sem o Acordo de Paris, o cenário seria ainda mais catastrófico, com um aquecimento de 4°C e 114 dias extras de calor extremo por ano.
Desde a adoção do Acordo de Paris, o mundo já aqueceu 0,3°C, resultando em 11 dias adicionais de calor extremo anualmente. Esse pequeno aumento já demonstra seus impactos, como as ondas de calor de 2022 na Índia e no Paquistão, que agravaram incêndios florestais e a escassez de alimentos.
O relatório também alerta para os perigos de pequenos aumentos de temperatura em regiões como a Floresta Amazônica, essencial para a estabilidade do clima. “Ao longo de uma década, com 0,3°C a mais de aquecimento, períodos de seis meses de calor extremo na Amazônia, como em 2023, se tornaram dez vezes mais prováveis”, explica Theo Keeping, pesquisador ambiental do Imperial College de Londres.
Para a saúde humana, cada fração de grau “significará a diferença entre a segurança e o sofrimento de milhões”, adverte Otto. O calor afeta desproporcionalmente os mais vulneráveis, como famílias de baixa renda, pessoas com doenças preexistentes, trabalhadores externos e idosos, cujo número de mortes relacionadas ao calor aumentou 167% desde a década de 1990.
Mesmo com o cumprimento das metas do Acordo de Paris, dois meses extras de calor extremo por ano exigirão “enormes implicações para os direitos humanos e a necessidade de adaptação”, avalia Otto. Medidas como o fortalecimento dos sistemas de água, energia e saúde, a ampliação de áreas verdes urbanas e a aplicação de proteções trabalhistas são cruciais, mas o financiamento para a adaptação permanece insuficiente.
Embora as energias renováveis tenham ultrapassado o carvão como principal fonte de eletricidade, 2024 se encaminha para ser o ano mais quente já registrado, com níveis recordes de CO² na atmosfera. Otto conclui que o mundo precisa acelerar a transição dos combustíveis fósseis com políticas mais fortes e justas, utilizando o conhecimento e a tecnologia disponíveis.
Fonte: http://www.metropoles.com