ELEGÂNCIA TAMBÉM É SABER TIRAR

ELEGÂNCIA TAMBÉM É SABER TIRAR

ELEGÂNCIA TAMBÉM É SABER TIRAR 150 150 Redação Regional

Durante muito tempo, aprendemos a associar elegância à abundância. Uma mesa
sofisticada parecia ser aquela com mais louças, mais taças, mais talheres, mais adornos
e uma quantidade de elementos capaz de impressionar antes mesmo de a refeição
começar. Mas uma mesa cheia nem sempre é uma mesa bem preparada.
Quando há objetos demais, falta espaço para o prato, para o serviço e até para os
movimentos naturais de quem está sentado. O convidado não sabe o que pode tocar,
onde apoiar as mãos ou qual peça realmente será usada. Aquilo que deveria acolher
começa a exigir cautela.
A elegância contemporânea segue outro caminho. Ela não está em mostrar tudo o que se
possui, mas em escolher com clareza o que aquela ocasião realmente pede. Isso exige
conhecimento, porque acrescentar é fácil. Difícil é olhar para uma composição pronta e
perceber o que pode sair sem que ela perca beleza ou significado.
Cada peça colocada à mesa deveria responder a uma pergunta simples: ela terá uma
função nesta refeição? Se não será utilizada, talvez esteja apenas ocupando o espaço que
pertence às pessoas.
Isso não significa defender mesas sem personalidade ou eliminar tudo o que é
decorativo. Um arranjo, uma vela ou um objeto afetivo pode ajudar a contar a história
daquele encontro. O problema começa quando a decoração impede a conversa, dificulta
o serviço ou transforma o centro da mesa em uma barreira entre os convidados.
Uma mesa de fondue, por exemplo, já possui uma dinâmica própria. A panela ocupa o
centro, os ingredientes precisam permanecer acessíveis e as pessoas movimentam os
garfos durante toda a refeição. Acrescentar muitos enfeites a essa composição pode
deixá-la visualmente bonita na fotografia, mas pouco funcional quando os convidados
se sentam. É nesse momento que a intenção precisa superar a vontade de impressionar.
Simplificar não é fazer de qualquer jeito. Também não é sinônimo de pobreza visual.
Uma mesa simples pode revelar escolhas muito cuidadosas: a proporção correta, o
espaço preservado, as peças adequadas ao cardápio e um detalhe capaz de dar
identidade ao conjunto.
Essa lógica não pertence apenas à mesa. Em muitas situações sociais, a elegância
aparece justamente naquilo que escolhemos conter: uma opinião que não precisa ser
dita, uma pergunta invasiva que não precisa ser feita, uma explicação que não precisa se
prolongar ou uma demonstração que não precisa competir pela atenção.
Há maturidade em compreender que nem todo espaço precisa ser preenchido.
Quando retiramos o excesso, conseguimos enxergar melhor o que importa. À mesa,
vemos as pessoas. Na conversa, escutamos o outro. Na hospitalidade, deixamos de
tentar provar alguma coisa e passamos a cuidar da experiência.
Talvez por isso a verdadeira sofisticação seja tão discreta. Ela não depende da
quantidade de elementos, mas da segurança de quem sabe escolher.
Porque elegância não é apenas saber o que colocar. Muitas vezes, é saber o que tirar.

Juliana Ventura

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