Por que os primeiros quilos somem rápido — e depois a balança “empaca”

Por que os primeiros quilos somem rápido — e depois a balança “empaca”

Por que os primeiros quilos somem rápido — e depois a balança “empaca” 150 150 Redação Regional

A ciência por trás do começo animador e do platô que frustra quem está emagrecendo. Um
guia de quem acompanha esses pacientes todos os dias — e a explicação de por que travar
não é fracassar.
Por Dr. Lesme Dariel Masso Cisneros — CRM 27440

A cena se repete no consultório com uma regularidade quase matemática. A pessoa começa a
emagrecer, vê a balança despencar nas duas ou três primeiras semanas, se enche de
esperança — e, de repente, o ponteiro parece grudar. Passam-se dias, às vezes semanas, com
o mesmo número. Vem a frustração, a sensação de que "não está funcionando", e não raro o
abandono do tratamento. Se você já passou por isso, preciso te dizer uma coisa logo de cara:
isso não é falha sua, nem defeito do tratamento. É fisiologia. E entender o que acontece por
dentro muda completamente a forma como você encara o processo.
Os primeiros quilos são, em boa parte, água
O primeiro susto — daqueles bons — quase nunca é gordura. Quando você reduz as calorias, e
especialmente os carboidratos, o corpo recorre às suas reservas de energia mais acessíveis: o
glicogênio, que fica estocado no fígado e nos músculos. Aqui está o detalhe que quase
ninguém conta: cada grama de glicogênio é armazenada junto com cerca de três a quatro
gramas de água. Ou seja, quando você queima esse estoque, libera junto uma quantidade
grande de água. É por isso que a balança pode cair dois, três, até quatro quilos na primeira
semana.
Some a isso a redução do conteúdo dentro do intestino, já que você passa a comer menos, e
uma leve mudança na retenção de sódio e líquidos. O resultado é um começo espetacular no
número — que engana. Aquele emagrecimento inicial rápido é, em grande parte, água e não a
gordura que você realmente quer perder. É um bônus psicológico, ótimo para a motivação,
mas é importante saber que ele não se sustenta no mesmo ritmo.
Por que a gordura sai mais devagar
A gordura de verdade sai num compasso muito mais lento e teimoso. Um grama de gordura
corporal guarda cerca de nove calorias, muito mais que o glicogênio. Para queimar meio quilo
de gordura, o corpo precisa de um déficit acumulado de aproximadamente 3.500 calorias.
Traduzindo: a perda de gordura saudável costuma girar em torno de meio a um quilo por
semana. Não é pouco — em um ano, é muita transformação. Mas é bem menos vistoso na
balança do que aquela largada de água.
Então, quando a fase da água acaba e sobra a gordura para ser mobilizada, o ritmo
naturalmente desacelera. Só que isso, sozinho, não explica o platô completo. Existe um
segundo personagem nessa história, e ele é o mais importante.
O corpo aperta o freio: a adaptação metabólica
O corpo humano não foi desenhado para emagrecer. Foi desenhado para sobreviver à falta de
comida. Por isso, diante de um déficit de calorias prolongado, ele reage com um mecanismo de

defesa engenhoso: gasta menos energia. Esse fenômeno tem nome — adaptação metabólica,
ou termogênese adaptativa — e é o principal responsável pelo platô.
Na prática, o seu gasto energético total cai mais do que seria esperado só pela perda de peso.
É como se o corpo, percebendo que está perdendo reservas, baixasse o consumo de
combustível para segurar o que tem. Estudos com pessoas em dieta mostram essa queda de
forma consistente. E não é diferente com quem usa medicações modernas: análises de longo
prazo com a tirzepatida — a substância do Mounjaro — mostraram que o gasto energético
caiu por volta de 9% ao longo do tratamento, mesmo quando os pesquisadores descontaram a
perda de massa. Ou seja, o corpo ficou genuinamente mais econômico.
Os hormônios entram no jogo
Essa economia não acontece por acaso. Ela é orquestrada por hormônios. À medida que a
gordura corporal diminui, cai também a leptina, um hormônio produzido pelas próprias células
de gordura que avisa ao cérebro que "há energia sobrando". Com menos leptina, o cérebro
entende que está em escassez e responde de duas formas: reduz o gasto metabólico e
aumenta o apetite.
Ao mesmo tempo, tende a subir a grelina, o hormônio da fome. É por isso que, semanas
depois do início, muita gente sente a fome voltar com mais força — não é fraqueza de
vontade, é biologia empurrando você de volta. Some a isso uma leve redução na produção de
hormônios da tireoide, que regulam a velocidade do metabolismo, e a queda daquela energia
gasta em movimentos involuntários do dia a dia — mexer as pernas, gesticular, trocar de
posição —, que diminui sem que você perceba. Todos esses freios agem na mesma direção:
gastar menos.
O déficit que encolhe sozinho
Junte tudo isso e chegamos ao ponto central. Imagine alguém que começa pesando bastante e
passa a comer uma certa quantidade de calorias. No início, essa quantidade fica muito abaixo
do que o corpo gasta — o déficit é grande, e o emagrecimento é rápido. Mas, à medida que a
pessoa perde peso, o corpo precisa de menos energia para se manter, e o gasto diário cai.
Chega um momento em que aquela mesma alimentação, que antes gerava um baque, já está
perto do que o corpo consome. O déficit, que era enorme, foi encolhendo até quase
desaparecer.
O resultado é o platô. E repare: ele não surgiu porque a pessoa passou a comer mais ou
"relaxou". Surgiu porque o corpo ficou mais eficiente e o próprio sucesso do emagrecimento
estreitou a diferença entre o que se come e o que se gasta.
E o músculo tem tudo a ver com isso
Existe ainda um agravante que está sob o seu controle. Quando se emagrece rápido, sem
proteína suficiente e sem treino de força, parte do peso perdido não é gordura — é músculo. E
o músculo é um tecido metabolicamente caro: ele gasta energia mesmo em repouso. Perder
músculo, portanto, é como desligar parte do seu motor: o metabolismo cai ainda mais, e o
platô fica mais difícil de furar. Por isso, quem cuida da massa muscular durante o
emagrecimento não só fica mais firme e forte — protege o próprio metabolismo e emagrece
com mais facilidade a longo prazo.
O platô não é fracasso — é uma etapa esperada

Aqui está a mensagem que eu mais repito no consultório: travar não significa que parou de
funcionar. O platô é uma etapa previsível, inclusive para quem usa medicação. As modelagens
de longo prazo com a tirzepatida mostram exatamente essa curva: perda intensa no começo,
seguida de estabilização, conforme a ingestão sobe um pouco e o gasto cai. Faz parte do
desenho biológico do processo. Encarar isso como derrota é o erro que mais faz gente boa
desistir a poucos passos do resultado.
A pior reação diante de um platô é justamente a mais intuitiva: cortar comida drasticamente,
entrar numa dieta radical. Isso costuma piorar a adaptação metabólica, acelerar a perda de
músculo e aumentar a fome — um tiro no próprio pé. O caminho é o oposto do desespero.
Como atravessar o platô do jeito certo
Depois de descartar causas simples, como o retorno silencioso de beliscos e calorias líquidas,
algumas estratégias ajudam a destravar com saúde:
Proteína em primeiro lugar. Manter uma ingestão adequada de proteína preserva o músculo e,
com ele, o seu metabolismo.
Treino de força. A musculação é a ferramenta mais poderosa contra a perda de massa magra e
a favor da firmeza — e sustenta o gasto energético.
Não corte às cegas. Em vez de reduzir drasticamente, muitas vezes o ajuste é qualitativo: mais
comida de verdade, menos ultraprocessado, revisão da rotina.
Olhe além da balança. Fita métrica, circunferência abdominal e exames de composição
corporal mostram a gordura caindo mesmo quando o peso está parado. A balança sozinha é
um juiz injusto.
Reavalie com o seu médico. Em alguns casos, o ajuste é clínico — inclusive de dose, sempre de
forma individual e acompanhada. E paciência: a maioria dos platôs se resolve em algumas
semanas quando o corpo se acostuma ao novo patamar.
O tempo é um aliado, não um inimigo
Emagrecer não é uma linha reta que desce sem parar. É uma escada com degraus e patamares.
Os primeiros quilos rápidos são o empurrão que a natureza te dá para começar; o platô é o
corpo se reorganizando. Quem entende isso para de brigar com a balança de um dia para o
outro e passa a olhar o processo pelo que ele é: uma mudança de corpo e de vida que
acontece em meses, não em dias.
Se você travou, não desista às vésperas de destravar. Procure orientação, cuide do músculo,
meça o que importa e confie na fisiologia. O corpo que resiste hoje é o mesmo que vai te
sustentar o resultado amanhã — se você tratá-lo com estratégia, e não com pressa.

Dr. Lesme Dariel Masso Cisneros (CRM 27440) é médico formado pelo Instituto Superior de
Ciências Médicas de Santiago de Cuba, com especialização em Medicina Geral Integral
(equivalente à Medicina de Família e Comunidade). Há 18 anos na profissão, é diretor clínico
do Hospital IMAS, em Guarujá do Sul, com atuação no tratamento de emagrecimento e no uso
seguro de medicações análogas de GLP-1. Este texto tem caráter educativo e não substitui a
consulta médica individual.

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